O desafio do reajuste escolar: de um lado a sobrevivência das escolas particulares, de outro, famílias com orçamentos achatados pela crise

Todos os anos, no segundo semestre, os diretores das mais de 40 mil escolas particulares em todo o Brasil, se dedicam a um exercício complicado que diz respeito à definição do reajuste da mensalidade escolar para o ano seguinte. A tarefa não nada é simples, pois envolve uma série de fatores que vão além do ambiente escolar e das possibilidades de previsões e projeções econômicas destas escolas. Para que o reajuste seja adequado ao poder aquisitivo dos pais, sem prejudicar a sustentabilidade destas unidades, é preciso avaliar e considerar aspectos como previsão de inflação, aumento de salário, aumento de despesas fixas e impostos, etc. Tudo isso dentro de uma cenário de instabilidade econômica e política no qual o País está mergulhado.

É fundamental para a sobrevivência destas escolas, chegar à medida certa do valor da mensalidade escolar do ano seguinte, pois, ao longo dos 12 meses, a unidade terá de trabalhar com o mesmo preço que foi definido, e terá de prestar o serviço sem pecar na qualidade, enfrentando, ainda, outro agravante desta realidade turbulenta, a inadimplência. Eis então um trabalho que não é para principiantes, e no qual não cabe “chutometria”. Isso poque, mesmo que minunciosamente calculada, a definição do reajuste está inevitavelmente atrelada a um alto risco. Um risco ao qual estão expostas as escolas, e com isso, o emprego de inúmeros trabalhadores, juntamente com o sustento de várias famílias. Além disso, expõe também as famílias dos alunos, que podem não conseguir arcar com as mensalidades e terem de buscar uma vaga na escola pública.

Cabe reforçar que precisamos estar com os pés no chão e extremamente atentos à profundidade de uma crise que tem se mostrado duradoura no Brasil, com uma instabilidade que priora qualquer tentativa de previsão econômica futura. Um cenário com uma sofrível perspectiva de crescimento de 0,5% para este ano, INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) de 3,2% até dezembro, taxa de juros básicos da economia em torno de 7%, sem contar a taxa de desemprego em torno de 12%, ou seja, com cerca de 12 milhões de desempregados.

Soma-se a tudo isso, outras problemáticas às quais o setor está sujeito. Ao analisar a situação das escolas particulares sob o ponto de vista da demanda, notamos o quão grande são os obstáculos destas unidades, considerando as expressivas quedas de natalidade, com a redução do número de crianças e jovens; e o empobrecimento da classe média. No geral, não será nada fácil para as escolas manterem seu número de alunos, por mais que achatem os preços e assumam as perdas de receitas. Notamos que as famílias estão chegando ao limite dos seus custos, não restando mais opções de corte. Atenho-me a dizer que a escola básica é a última a sentir a crise, entrementes, é a última a sair!

Isso porque a Educação é um investimento de longo prazo, algo que só entra na linha de corte das famílias, quanto estas já não têm muito o que cortar de seus orçamentos.

Ademar Batista Pereira
Presidente da FENEP

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