A reforma do ensino médio e a sociedade

Há muitos anos se discute a função do ensino médio brasileiro. Sabe-se que muitos adolescentes nada aprendem ou abandonam os estudos nessa fase da vida. Um dos motivos é que temos estudantes que chegam ao ensino médio analfabetos funcionais, sem limites e sem noção das suas obrigações.

Para entender esses jovens precisamos perceber que educação deve ser um processo que acontece por toda a vida. Quando educamos nossas crianças para um mundo de direitos, em que desde a primeira infância elas decidem o que gostam ou não, sem regras ou limites, criamos crianças que não podem ser contrariadas, que só fazem o que gostam. Ao chegar na adolescência não podemos esperar que elas respeitem leis, façam o que deve ser feito, pois não foram educadas para isso.

Estudar exige disciplina, respeito ao próximo, cumprir horários pré-determinados, entre outras obrigações. Para crianças que foram educadas para fazer apenas o que desejam, a fase da adolescência revela todo o desinteresse da nossa sociedade permissiva e os reflexos são sentidos dentro da escola, com alunos que não querem estudar e a culpa recai sobre o modelo proposto pelo governo, sobre os pais, e até mesmo sobre os professores.

A reforma do ensino médio proposta pelo governo é boa, pode ser discutida e coloca o ensino médio do Brasil em um bom nível que pode ser comparado com modelo de países onde a educação dá certo. A reforma propõe que nossos jovens se definam por uma profissão, pois nem todos precisam ou tem condições para uma graduação. Ela torna o ensino médio de tempo integral, tirando da rua ou dos condomínios os jovens e levando as estruturas educacionais a se organizarem para a formação profissional. Os “especialistas” discutem a forma que foi imposta, que deveria ser mais discutida, que não tem recurso, mas todos admitem que já estamos discutindo há muitos anos e que este é o caminho certo.

Por outro lado vemos estudantes ocupando escolas, em busca dos direitos de não estudar. E os pais desses estudantes novamente apoiam seus filhos, pois a educação que não deram a eles, mais uma vez a culpa é do governo, do mundo. Tenham paciência e façam um favor para os seus filhos. Levem eles pra casa e expliquem a eles que a vida é mais dura do que eles pensam, expliquem o quanto vocês dão duro para que tenham uma boa vida, celular de última geração, tênis de marca, etc. Ensinem eles a fazerem o que precisa ser feito, estudar e se preparar para a vida adulta. Façam mais, participem da escola, acompanhem seus filhos, façam com que respeitem os professores, que cuidem da escola, ajudem a mantê-la, pois é a última trincheira da sociedade e não podemos perdê-la.

Ademar Batista Pereira – professor, empresário e vice-presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep).

Print Friendly, PDF & Email
This entry was posted in Artigos. Bookmark the permalink.

One Response to A reforma do ensino médio e a sociedade

  1. GILSON MAICA DE OLIVEIRA says:

    Caro Ademar,
    tenho de concordar com você a repeito de muito do que disse. Sou professor no ensino médio e na graduação, e vejo todos os dias jovens que chegam despreparados para estes níveis de ensino, tanto do ponto de vista cognitivo quanto moral. Lamentável! Uma reforma do ensino é simplesmente urgente, embora deva ser amplamente debatida pela sociedade e realizada com certa cautela. Existem muitas distorções e problemas que não se resolvem por medida provisória, um expediente oriundo do estado de exceção dos tempos da ditadura militar que persiste em nossos “tempos de democracia”. Recentemente, tivemos a notícia de que professores no Brasil ganham bem menos que outros países e trabalham mais,[cf.1] certamente isso representa um sério problema, pois salários baixos não atraem para a profissão as melhores mentes e pessoas mais bem qualificadas. Doutra parte, a ideia de um ensino integral é maravilhosa, porém, dos países da OCDE o Brasil é o que menos investe em educação por aluno [cf.2]. (penúltimo lugar neste caso). De mais a mais, estrutura das escolas pública é precária, como é de conhecimento geral. Sem tangenciar estes e outros tantos pontos que não aqui não foram elencados, uma reforma no currículo não deixará de ser um tiro no pé, um remendo que não resolve o problema, continuaremos na lanterninha à frente apenas da Indonésia no PISA.
    Cordialmente,
    Gilson Maicá.

    [1] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2016/09/professor-no-brasil-ganha-menos-e-trabalha-mais-que-os-de-outros-paises.html
    [2] http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/brasil-o-penultimo-em-ranking-internacional-de-investimento-por-aluno-13873118

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *