Dois tigres educacionais asiáticos

Coreia do Sul e Cingapura (1) são duas estrelas mundiais reveladas por exames internacionais de avaliação da educação básica (2). Seus estudantes superam com folga os dos poderosos EUA. Não é preciso muito para imaginar a distância entre os resultados dos asiáticos e os de estudantes brasileiros (3).

Por conta desse destaque, uma delegação de meia centena de educadores brasileiros foi ouvir os planos das autoridades educacionais desses países asiáticos e visitar algumas de suas escolas.

Acostumados a ver a qualidade educacional ser depurada ao longo de centenas de anos, o primeiro espanto da delegação foi constatar que essa educação de alto padrão foi construída no espaço não muito maior de uma geração. As diferenças entre nosso país e os asiáticos são assombrosas. O que ganhamos em recursos naturais perdemos feio em recursos humanos.

O Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo, imensas reservas de petróleo, uma das maiores áreas agricultáveis do planeta, recursos minerais incomparáveis, siderurgia e extração de petróleo desde o começo dos anos 1950, indústria automobilística desde o final dos anos 1950. Sem terremotos, maremotos, vulcões. Nunca foi ocupado militarmente. Em 1970 tinha todos os índices econômicos e educacionais muito acima daqueles da Coreia do Sul e de Cingapura.

A Coreia do Sul tem um território 70% montanhoso, pouquíssimo adequado à agricultura. Sem minerais e outros recursos naturais. Em 1970 não tinha fabricação própria de automóveis, nem siderurgia, nem qualquer indústria. Foi ocupada de 1910 a 1945 pelo Japão. Só começou a existir modernamente ao fim de uma terrível guerra civil interrompida em 1953.

A cidade-estado de Cingapura nem sequer tem um povo próprio. Minúsculo sultanato da Malásia até o começo do século XIX, foi inventada por um empresário inglês. O tamanho é inferior a 1000 km2 (cerca de 40 por 20 quilômetros). Na Segunda Guerra Mundial foi ocupada pelos japoneses. Depois que estes foram derrotados em 1945, voltou a ser protetorado inglês. Até recentemente precisava trazer a água potável da Malásia. Sua história independente moderna começa em 1965 – partindo exatamente do zero.

Hoje a Coreia do Sul é um gigante industrial construído em menos de 50 anos. Maior dos chamados “tigres asiáticos”, lidera a construção naval, o uso da Internet. Possui 700 mil patentes (Inglaterra e Alemanha têm 500 mil e o Brasil 40 mil). Seul, sua capital, é a 6.ª cidade mais rica do mundo. É conhecida pelo tamanho e qualidade das suas indústrias eletrônica e automobilística. E considerada o país mais inovador do planeta.

Cingapura tornou-se em menos de 50 anos um gigante financeiro e comercial. Por sua política fiscal aberta é considerada o melhor lugar do mundo para fazer negócios. Tem o 2.º maior porto do mundo, atrás apenas de Hong Kong. Depois de Nova York e Londres é o 3.º maior centro financeiro do mundo (SP está na 38.ª posição). Tem o 3.º maior PIB per capita do mundo (em poder de compra).

Em 1970 o PIB per capita do Brasil, da Coreia do Sul e de Cingapura eram semelhantes e inferiores a 1000 dólares (valor nominal).

Hoje, per capita, o PIB de Cingapura é de 52 mil dólares, o do Coreia do Sul é de 32 mil dólares e o do Brasil de 11 mil dólares (4).

O que gerou tamanha riqueza nesses dois vigorosos tigres asiáticos?

Quem respondeu “educação” acertou na mosca. Educação de qualidade e pública. Claro, esses países não têm terra agricultável, não têm minérios, petróleo. Até água potável falta em um deles. Nada de riquezas naturais. O vigor atual só poderia ter origem cultural. São campeões na produção de conhecimentos – campeões pelo nível da educação que oferecem a seus jovens.

Antes de serem ricos, Coreia do Sul e Cingapura foram mais pobres do que o Brasil. Como entender seu sucesso educacional? Como entender que a Coreia, que nem fabricava carros quando o Brasil já produzia Volkswagens, Fords e Chevrolets, tenha ultrapassado com enorme folga nosso país, produzindo carros com suas próprias marcas, que são lideres em venda no mundo? Como entender que a Bolsa de Valores de São Paulo seja amplamente superada pela gigantesca Bolsa de Cingapura – sendo este país 10 mil vezes menor do que o Brasil?

Será que se gastaram fortunas com escolas, professores etc.?

Como poderiam, se ainda não existiam as fortunas? O que eles tinham eram metas a cumprir. Valores a zelar. Obrigações e mais obrigações. Sabiam que primeiro tinham de aprender – e muito. Nenhuma política distributivista era possível no começo. Foram anos duros. A riqueza teria de ser construída num circulo virtuoso.

Professores ensinando o máximo, alunos aprendendo o máximo, gerando muitos economistas, engenheiros de alto nível e mão de obra altamente qualificada. O resultado coreano: produtos de alta qualidade e compradores no mundo todo. O resultado de Cingapura: centro financeiro forte, comércio livre, mercado atraente para todo mundo.

Não foram soluções pedagógicas clássicas que impulsionaram esses países. A Coreia não tinha professores bem preparados em grande quantidade quando começou seu salto educacional. O que fez então? Contando com os melhores professores, aumentou o total de alunos por sala, bem acima do que o mundo estava acostumado a ver. Nas escolas coreanas e de Cingapura os professores tinham padrões de desempenho a cumprir. Tinham metas sempre crescentes. Do mesmo modo, os alunos e os diretores das escolas.

Mas, cuidado com falsas aparências – não se trata de milagre da cultura asiática. Cingapura e Coreia do Sul possuem enormes diferenças. Sim, eles mostram nas avaliações internacionais que são tigres educacionais, revezando-se nos primeiros lugares, mas isso não decorre de serem semelhantes. Nada mais diferente do que esses dois países em termos de língua, origem e composição étnica.

A Coreia, embora tenha se modernizado apenas no século XX, é um país asiático tradicional de longa história – o reino de Koriö foi criado em 918. Sua característica mais marcante é uma enorme homogeneidade – 98% dos habitantes são coreanos de origem, sendo reduzida a contribuição de outros países. Para se modernizar hoje, todos os sul-coreanos estudam inglês. E nisso estão preparados para a leitura e a escrita. Entretanto, a oralidade inglesa deles é ainda pouco compreensível.

Já Cingapura nada tem de tradicional. Foi fundada em 1824 como protetorado inglês – na verdade, uma criação de estrita responsabilidade do cidadão inglês Thomas Stamford Raffles. Naquela época, Cingapura, cuja população mal chegava a 1000 pessoas, teve de ser povoada com imigrantes da China (a maioria), da Malásia e da Índia. Por isso a língua materna de boa parte da população é chinês, ou malaio ou um dialeto indiano. Para contornar o problema de tamanha multiculturalidade, o país tornou o inglês a língua oficial, ficando as outras três línguas em nível secundário. Talvez a disseminação do inglês entre os habitantes dessa cidade-estado tenha ajudado o fundador da moderna Cingapura, Lee Kwan Yew (5), a trazer as imensas quantidades de investimentos que deram o ar moderno, cosmopolita e integrador de negócios. Afinal, isso facilitava enormemente a europeus e norte-americanos se comunicarem com os locais. Hoje, Cingapura se destaca em Inglês no Pisa. É o 3.º país na avaliação internacional do Pisa na sua língua oficial. Os EUA, que têm a mesma língua nacional, também inglês, ocupa o 24.º lugar. Será que o inglês do estudante de Cingapura é mais culto do que o dos EUA?

As diferenças dos países também ocorrem na formação de professores. Cingapura forma professores como carreira adicional a partir de profissionais vindos de outras áreas, enquanto a Coreia forma professores a partir de escolas especializadas. Os currículos e os formuladores de políticas educacionais são bastante diferenciados de um país para o outro.

Com tantas diferenças, o que há de comum nessas educações e o que as destaca?

Procuremos pelas causas habitualmente buscadas. Será um pequeno número de alunos por sala? Já vimos que na origem do salto educacional esse número foi muito alto. Será o uso intensivo de tecnologia no ensino? Na verdade, a tecnologia está começando a ser usada só agora – muito depois do sucesso educacional ter se estabelecido. Será o uso adequado de teorias educacionais europeias e americanas? Não, o desenvolvimento de sua educação nada tem a ver com Piaget, Vygotsky ou qualquer outra linha teórica. Esses fatores mostram ser mais mitológicos do que efetivos na produção do sucesso educacional dos dois países asiáticos.

A educação em ambos os países foi construída em termos práticos, voltada para o aluno aprender, voltada a resultados. Resultado sendo a diferença entre o que o aluno sabe ao entrar e ao sair da escola. Para obter isso, é preciso quem saiba ensinar – professores bem preparados, confiantes, com conhecimento, autoestima, vontade de ensinar. É preciso quem saiba administrar o ensino – que haja rigor e seriedade. Em ambos os países, professores e educadores ficam no topo das profissões – o topo de qualificação. É comum, entre os melhores alunos da educação, que a escolha prioritária seja ser professor. Chegando a concorrência para a carreira de professor a ser tão grande quanto a concorrência para entrar em escolas de Medicina.

Professores são bem remunerados? Sim, mas isso deve ser visto nos devidos termos. Muitas profissões continuam a pagar mais – finanças, gerência etc. Hoje, a remuneração equivale à de engenheiros, mas não podemos esquecer que professores já foram muito mal remunerados no começo do salto educacional. O que nunca faltou foi o respeito pela profissão, na qual temos de incluir os administradores escolares e os autores de textos didáticos. O que nunca faltou – na quase britânica Cingapura e na exclusivista Coreia do Sul – foram metas a cumprir, deveres e deveres. Hoje os povos desses países têm direito a um alto padrão de vida. Lutaram muito por isso, estudaram muito e estressaram-se. Ficaram noites estudando – e ainda ficam.

Os coreanos, devido ao excesso de qualificação, precisam agora lutar para estar no topo do topo, e para isso competem ferozmente por uma vaga na Universidade de Seul, a mais disputada. Fora do período de aula regular gastam um tempo (e dinheiro) expressivo para se preparar nos cursinhos (hagwon) e estar em melhor condição para os exames de entrada. Isso é duro e ninguém gosta dessa intensa concorrência.

Uma guia que acompanhou os brasileiros nas visitas às escolas coreanas disse que não há problemas com drogas ou álcool entre os jovens. O problema é a concorrência intensa entre os estudantes, que chega a ser patológica. (6)

Na verdade, esse estresse gerado nos momentos de superar os deficits de conhecimentos dos países, agora que os resultados estão por toda parte, está sendo tratado pelas autoridades educacionais tanto de Cingapura quanto da Coreia, que buscam a Educação com Prazer e realizam grandes esforços nesse sentido.

Num livro bastante interessante pelo conteúdo e estranho pelo título – “As crianças mais inteligentes do mundo – e como chegaram lá” –, a autora, Amanda Ripley, discute exatamente a força de escolas top do Pisa, como as da Coreia do Sul e Finlândia, versus a fraqueza da educação básica dos EUA. E faz isso acompanhando alguns norte-americanos que foram estudar no ensino médio desses países. Ela observa o comentado destaque de excelência dos professores – inexistente nos EUA. Lamenta o estresse dos coreanos, mas observa que o mundo hoje exige preparação e que levar a sério os esforços educacionais “é mais honesto”. Aliás, os estudantes dos EUA têm notas ruins na avaliação do Pisa em Matemática e – no livro da Amanda – vemos que existe uma correlação entre esse fraco resultado e eles não serem muito exigidos na escola.

Qualquer paralelo com a falta de rigor e seriedade na educação em nosso país não é mera coincidência. A opção pelo esforço não é muito popular no Brasil. Trocamos a solução real dos problemas pelo alívio presente e momentâneo. Quem conhece a experiência das crianças que sabem esperar para ganhar o docinho, e se tornam os melhores alunos depois, sabe que todos conhecem o remédio. Mas muitos continuam preferindo evitá-lo.

NOTAS
(1) “Cingapura” e “Singapura” são formas aceitas; a primeira é mais tradicional em nosso país – a segunda é adotada em Portugal.
(2) O exame mais conhecido é o PISA – Programme for International Students Assessment –, aplicado entre mais de 500 mil jovens de 15 anos de várias nações. São avaliados os conhecimentos de Matemática, Língua Nacional. Ciências. Outro exame internacional importante é o TIMSS – Trends in International Mathematics and Science Study; realizado de forma mais intensiva e detalhada, em ciclos de quatro anos para alunos de 4.º e 8.º anos da educação básica; neste último, Coreia do Sul e Cingapura têm se revezado nos primeiros e segundos lugares em Matemática e Ciências.
(3) No Pisa 2014, avaliando raciocínio, Coreia do Sul obteve o 2.º lugar, Cingapura o 1.º lugar, EUA o 18.º lugar e o Brasil o 38.º lugar. O Brasil não participa do TIMSS, que é aplicado em 63 nações.
(4) Ivan Kushnir´s Research Center
(5) Não seria uma metáfora exagerada dizer que Cingapura foi tratada como uma empresa sob as mãos desse líder empreendedor; ele cuidou de cada detalhe para erguer “sua empresa” – com métodos administrativos admirados em todo o mundo.
(6) Uma questão não tratada aqui é o empreendedorismo nos EUA levar à criação da Google, Amazon, Microsoft, Apple – que começaram minúsculas e depois suplantaram os antigos gigantes, como a IBM. Na Coreia do Sul, que tem provavelmente engenheiros muito mais bem preparados do que a média nos EUA, a enorme concentração do poder em pouquíssimas empresas, como a Hyundai e a Samsung, praticamente sufoca a oportunidade de surgirem criações disruptivas. Isto é, além de dar educação é preciso abrir espaço e investimentos para as “garagens” dos jovens empreendedores.

Prof. Carlos Eduardo Bindi/Etapa

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