A criança e a superexposição às imagens

A grande evolução da tecnologia e a consequente acessibilidade a todos pelo preço e facilidade de aquisição desses aparatos tecnológicos está levando as famílias a não perceberem a dimensão da exposição das crianças, desde recém-nascidas, a esses dispositivos portáteis (jogos eletrônicos, tablets, celulares, iPads), especialmente vídeos com excesso de imagens e sons.

É preocupante como assistimos a isso na ruas, no restaurante, no avião, no carro, em todo lugar que tem criança. E vejam que estou falando de bebês de um ou dois anos de idade, todas (ou a grande maioria) fazendo uso de iPad ou celulares modernos. Os adultos responsáveis por essas crianças não percebem ou não acreditam que estão fazendo mal aos seus filhos. No máximo, pensam que eles serão ‘feras’ no futuro por proporcionar a eles o acesso às tecnologias.

Isso reflete já o comportamento dos adultos que estão ligados nos seus smartfones em todos os lugares. Essa mentalidade vai nos levar a uma grande transformação de como nós nos relacionamos e convivemos com os outros seres humanos. Acredito que viver e se relacionar somente se aprende na prática, e hoje o que estamos praticando? Entre os adultos jovens já percebemos alguma dificuldade de se relacionarem uns com os outros, e nos futuros jovens também.

É através do uso desses dispositivos portáteis que têm crescido bastante o acesso de crianças muito jovens à tecnologia, de acordo com a entidade norte-americana Common Sense Media, que estuda as relações das crianças com o entretenimento. Ainda segundo a Active Healthy Kids Canada e Kaiser Foundation, hoje as crianças e jovens usam a tecnologia com frequência quatro e até cinco vezes maior do que a recomendada, o que está resultando em consequências graves para a saúde.

Tanto a Academia Americana de Pediatria, quanto a Sociedade Canadense de Pediatria, defende que bebês com idade entre 0 a 2 anos não devem ter qualquer exposição à tecnologia, enquanto que crianças de 3 a 5 anos devem ter acesso restrito a uma hora, por dia apenas. Já as crianças de 6 a 18 anos devem ter acesso restrito a duas horas diárias.

No Japão e nos Estados Unidos, por exemplo, há pesquisas que comprovam a gravidade do uso constante de fones de ouvido para o aumento da perda auditiva entre os jovens. Calcula-se que o problema aumentou 30% entre os jovens norte-americanos, nas últimas três décadas. Segundo a Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia (SBORL), a exposição a sons intensos é a segunda maior causa de deficiência auditiva. E o excesso de barulho pode levar à surdez, ao longo do tempo.

Ao invés de termos as crianças utilizando esses equipamentos portáteis no seu dia a dia, no carro ou no caminho para a escola, os pais deveriam aproveitar e utilizar esses momentos para o diálogo, troca de ideias e conversas que possam colaborar com a construção saudável da personalidade da criança. São algumas oportunidades importantes na rotina das famílias – para não dizer únicas – que desperdiçamos ao colocar a criança para ver um filme ou desenho no iPad.

Depois, anos mais tarde, os pais reclamam que seu filho não conversa e se fecha. Não entendem por que o filho não reconhece o pai ou a mãe como pessoas importantes e que poderão ajudá-lo nos momentos difíceis.

Os pais precisam urgentemente rever essa superexposição das crianças às tecnologias e imagens, caso contrário ela trará prejuízos incalculáveis para o desempenho escolar dos filhos, e no futuro, para a vida pessoal e profissional desse adulto.

Ademar Batista Pereira é diretor da Escola Atuação, diretor de Planejamento do Sinepe/PR e presidente da FEPEsul (Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino da Região Sul).

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