Nossa mentalidade não é coletiva, somos um povo individualista

Observando como são organizadas as nossas instituições e o comportamento do brasileiro em relação a elas posso afirmar: somos individualistas. Numa breve análise é possível perceber o quanto não nos envolvemos em relação a assuntos coletivos. Normalmente, não participamos de reunião de condomínio ou de associação de bairro, e quando nos dispomos a participar logo queremos ser líderes. Se os demais não concordam conosco, fundamos a nossa própria associação. Indo um pouco mais fundo, percebemos que a maior parte dos brasileiros não está nem aí em relação a política, seja ela no nível que for. Entendemos que votando já fizemos a nossa parte. Claro que isso é bem explorado pela classe dominante, dos políticos.

Como regra geral, podemos dizer que não tiramos tempo para muita coisa além de trabalhar, ir a festas e ficar com a família. Em relação a política nos contentamos em pensar que é assunto para gente que não é séria, ou para figuras públicas “conhecidas”. Podemos citar ainda como nos comportamos em relação às praças, parques, ruas, etc. Em geral, as pessoas não cuidam nem do seu próprio quintal, quem dirá cuidar dos espaços coletivos. Pois temos uma visão que o público não é de ninguém, ou é o governo que tem a função de cuidar. E essa visão vem se expandindo para outros campos. A percepção é que a cada dia precisamos menos do outro, pois temos o nosso próprio carro, nossa tv, nossa comida. Neste contexto, acredito que estamos criando nossas crianças de maneira pior, pois além de eles não precisarem de ninguém, os estamos educando sem dificuldades, sem contrariá-los, o que nos leva a sentir desde já como está se configurando a próxima geração: com pessoas individualistas e egoístas, ou seja, que pensam que o mundo está a seu serviço.

Os governantes percebem isso e se organizam para manter-se no poder juntamente a seus familiares e conhecidos. Vejam como funcionam os partidos políticos: sem exceção todos tem dono, sem rotatividade de direção. A maioria dos partidos são comandados por “caciques” locais, regionais ou nacionais, com forte amarração entre as instâncias.  No Brasil, os partidos são organizados de cima para baixo, quando deveria ser o contrário, deveria ser organizado localmente, regionalmente e depois nacionalmente.

Como cidadãos, esperamos que alguém resolva nossos problemas, quando o tivermos. Se num momento não temos problema, temos emprego, estamos com as contas em dia, não participamos de nada, nem queremos saber do condomínio, ou do local onde vivemos. Mas, basta ter um problema que buscamos nossos “direitos”. Com essa mentalidade individualista pensamos que o nosso voto “único” é grande coisa, mas quantos votos são necessários para eleger um vereador, um deputado estadual ou federal, e como ele pode ser conquistado? Pensamos que é possível um candidato falar com 20 mil pessoas, por exemplo, se for candidato em uma capital, e mais, falar, se comprometer com o que cada um pensa, e depois de eleito conversar com cada um.

Por que você acha que temos essa forma de voto, única, obrigatória e direta, por que é bom para o país? Ou por que é bom para os políticos? Por que você acha que a renovação é sempre pequena, e quase impossível alguém fora do mundo político ser eleito? Quando há renovação é sempre ou filho ou parente de algum político, ou alguém com carreira política que foi vereador vários mandatos, depois deputado, e vai virando um profissional na política.

A desculpa e justificativa que aceitamos é que o povo não sabe votar. E, o povo – você deve concordar – é muita gente. Nunca dizemos: “eu não sei votar”, “eu não participo politicamente”. Ou seja, com nossa mentalidade individualista, os outros, ou o coletivo é o culpado pelas mazelas e fraquezas. Vou ainda mais longe, a culpa é do modelo, modelo de organização social, que como poucos participam, nada precisa ser explicado. Assim o poder se mantém entre os mesmo de sempre e quando tem rotatividade é sempre entre os mesmos grupos, variando apenas os cargos. Isso pode ser observado em todas as instituições e sindicatos existentes no Brasil, desde o condomínio do prédio até o partido político.

Ademar Batista Pereira – presidente da FEPEsul (Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino da Região Sul), membro da Executiva Estadual do PV e articulista do site www.esominhaopiniao.com.br.

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4 Responses to Nossa mentalidade não é coletiva, somos um povo individualista

  1. Emerson Lima says:

    Parabéns pelo texto e pela visao clara que sem pensar no todo não conseguimos construir quase nada sustentável. A política realmente é praticada no dia-a-dia, na maioria das vezes de forma inconsciente e pensamos que política não é pra nós. Continue nos brindando com estes textos edificantes. Abs

  2. Fabiana says:

    Ademar, parabéns, ótimo texto!! Digno de publicação em mídias mais amplas!!
    Um beijo
    Fabiana

  3. Edgar Flexa Ribeiro says:

    Muito bom., desculpe a demora em responder!
    Uma ponderação: os representantes do povo são os vereadores no município, os deputados estaduais nos estados e os federais no país. Senador representa os estados, e o Acre tem três e São Paulo tem três.
    Os deputados representam o povo, logo em Brasília São Paulo tem mais deputados que o Acre.
    Mas o eleitor brasileiro não sabe quem o voto dele elegeu – só deixam ele saber em quem votou, mas o voto dele pode ter eleito um outro candidato, as vezes de outro partido, no qual o eleitor não votaria nunca. Nós não sabemos quem o voto que damos elegeu! E eles são os nossos representantes! Mas os eleitos ficam livres de qualquer compromisso,e nós sem meios de cobrar deles que nós representem…
    Aí fica difícil…

  4. Luiz says:

    parabéns por cada palavra….

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